Monday, March 12, 2012

Pequeno Manual de Iniciação às Artes do Sonho Acordado e aos Mistérios dos Devaneios

Creatures, By Rebecca Carvalho


Pequeno Manual de Iniciação às Artes do Sonho Acordado
e aos Mistérios dos Devaneios

Prólogo
Olá. O meu nome é... não tem importância. Nessa história eu terei o nome que você quiser. Quando eu contar até três quero que você feche os olhos e me dê o nome e a aparência que desejar. Um nome pequeno ou comprido, nome local ou estrangeiro, nome engraçado ou sem graça, um nome desconhecido ou o nome de alguém que você conhece. Os meus olhos podem ser estreitos ou bem abertos, o nariz torto ou empinado, os cabelos lisos ou encaracolados, a pele clara ou escura. Não importa. Eu serei quem a sua imaginação mandar. Concentre-se na imagem e no nome que você desejar e eu serei real nesse mundo criado de pensamentos leves. Está pronto..? Um... dois... três... Abra os olhos. Você me viu? Agora você sabe quem eu sou. Muito prazer!
Você já viajou? Sim? Não..? Eu vivo de viajar. Tenho um meio de transporte preferido, mas eu o mostrarei a você quando a hora chegar. Sou de uma terra onde todos estamos sempre em jornadas, rumando para além do horizonte, atravessando terras sombrias, conhecendo criaturas mágicas e outros seres de caráter, como os humanos diriam, imaginativo. Nós viajamos porque gostamos de viver novas aventuras e fazer novos amigos – mas, principalmente, porque em cada missão aprendemos um pouco mais sobre nós mesmos e nos tornamos mais fortes. Que terra é essa de onde eu venho? Do mundo que você traz dentro da cabeça. Do universo que visita vagamente quando aborrecido com a vida real, até que alguém passa por perto, arrancando-o dos próprios pensamentos, e pergunta se você estava sonhando acordado.
Não acredita que alguém possa viver tantas aventuras apenas por ficar em devaneios? Então você ainda não explorou direito esse universo dentro da sua cabeça. Com o treinamento certo você também poderá viajar por meio dos seus pensamentos e é por isso que eu estou aqui. Eu vi você e achei que pudesse ensiná-lo a minha técnica. Se não estiver interessado, também não problema. Algum dia, quem sabe, pulando de um pensamento a outro nos encontremos novamente e se você quiser poderei então ensinar o que eu sei. Mas, se você estiver pronto, podemos começar as aulas agora mesmo. Cada lição consiste de uma viagem guiada por mim. Ao final você estará pronto para seguir nas próprias aventuras, mas antes precisa praticar mais e acreditar mais na força da própria imaginação.


Capítulo 1 – Viagem à Floresta do Mago Cristalino
Quando eu contar até três quero que você inspire profundamente e depois solte o ar lentamente. Devagar, sem pressa, mas também sem demora. A respiração é o segredo da concentração. Já notou como um nariz entupido atrapalha os pensamentos? Se você souber controlar a respiração poderá ir longe. Ou perto. Depende de onde queira chegar. Mas agora, sem mais explicações, contarei até três e ao final da contagem siga o procedimento. Preparado? Um... dois... três... Muito bem, mais uma vez... Um... dois... três... Percebeu como o ar entra e sai dos pulmões fazendo com que os músculos se sintam mais relaxados? Outra vez... um... dois... três...
Se você estiver calçado, pode se livrar dos sapatos. Se estiver frio, coloque os sapatos novamente. A nossa primeira viagem será por terra, se você não se importar. Se você estiver com medo de viajar a pé e acabar cansado demais, não precisa mais se preocupar. No mundo dos pensamentos quanto mais andamos mais nos sentimos revigorados. Eu quero apresentar você a um velho amigo, mas onde ele mora não há carros ou bicicletas, então só nos resta ir andando. Você vê a floresta logo adiante? É ali onde ele vive. Não devemos assustar nenhum animal escondido entre os arbustos. Pelo menos não com carros ou bicicletas, coisas que eles nunca viram. Seria injusto, percebe? Talvez com caretas. Caretas bem feitas, daquelas em que o careteiro consegue esticar os olhos, arreganhar o nariz e esticar a língua ao mesmo tempo.
Está escuro. Não deveríamos entrar numa floresta a noite, mas hoje é o aniversario do meu amigo e todos estão em festa. Vamos, eu trouxe um lampião comigo e a luz deve ser suficiente. A claridade do lampião forma uma piscina de luz ao redor de nós dois e dentro dessa redoma estaremos seguros. Venha comigo, não se afaste, vamos entrar na floresta por essa trilha.
Você já esteve numa floresta com árvores tão altas? Olho para cima e tenho a impressão de que as copas emaranharam-se para sempre. Não há pente que as desembaraçe, como uma cabeleira vasta cheia de nós, descuidada. Mas, se você prestar atenção notará que aqui e ali, além das galhadas, está pedacos do céu. Vê as estrelas brilhando no manto negro da noite? São como minúsculas janelinhas para o outro lado do firmamento, onde todos vivem sempre em festa. Daqui de baixo podemos ver apenas o brilho das vestes deles quando passam perto das janelas.
Vamos continuar a jornada. Não se preocupe, eu conheço o caminho. Sempre que visito o meu amigo eu imagino como seria morar aqui, porque eu gosto do cheiro da mata. Inspire profundamente. Você reconhece esses cheiros? São aromas diferentes. Primeiro o gramado molhado, o orvalho, com o distinto aroma de terra e chuva. É um cheiro que impregna as narinas sem pedir licenca. Então vêm os cheiros delicados das roseiras e jasminzeiros, das florzinhas que caem das árvores quando o vento sopra. É um aroma mais sutil e inconstante, um aroma que o pega de surpresa quando está sonhando acordado. O terceiro e último aroma é o dos troncos das árvores. Cheiro de madeira, o respeitável cheiro de pinho, cedro, carvalho, eucalipto. Cheiro de árvores centenárias, árvores que viram os nossos antepaçados e verão os nossos descendentes.
Você está bem? Está aproveitando a viagem? Oh, ouviu aquele piado?! Não se assuste. Vamos parar um pouco, eu apagarei o lampião para não atrair a atenção para nós. Ficaremos na escuridão por alguns minutos e faremos silêncio para ouvir melhor. Essa floresta não é como as outras. Há mais seres além dessas árvores do que as simples lebres e veados. Não há leões ou ursos, pelo menos eu acho que não. Também não há hipopótamos, mas um dia eu vi uma girafa correndo assustada pela trilha. O pescoço dela era tão alto quanto essas árvores. Eu não sei de quem ou de que ela corria. Quando ela me viu tentou fingir que estava bem e caminhou cheia de si devagarzinho, composta como uma gazela vaidosa, mas assim que ganhou distância voltou a correr o mais depressa que podia. Eu sei que ela correu, porque eu estava no alto de um coqueiro tentando pegar cocos e por isso eu a vi. Oh, outro piado! Ah, mas não tenha medo, era apenas uma coruja. Veja, logo ali, empoleirada naquele galho. Vê os olhos cor de âmbar brilhando para nós? Olá, coruja, como vai você nessa noite de festa? Ela piscou, ela piscou! Sabe o que isso significa? Eu também não sei. Vou acender o lampião novamente e continuaremos a viagem.
Não estamos muito longe da casa do meu amigo, mas eu preciso alertá-lo para mais um detalhe. Cuidado com a cabeça, olha o galho baixo! Foi por pouco... mas, como eu dizia, eu preciso dizer-lhe que... Olha o tronco no caminho! Vamos, eu o ajudarei a passar por cima dele. Tente não pisar no musgo, é um bocado escorregadio. Isso, muito bem, não foi tão dificil. Vamos apressar o passo, estamos atrasados. Acho que não teremos mais interrupções e agora finalmente poderei contá-lo mais sobre os seres que moram entre essas árvores. Eu não quis assustá-lo no começo, mas acho que agora que você está mais acostumado com o ambiente poderá aceitar melhor o fato de que nessa floresta o terreno entre o real e o imaginário é mais sutil do que qualquer um poderia esperar.
Essa é uma floresta antiga e, como todas as coisas antigas, tem os seus segredos. Há muito tempo, quando homens e criaturas mágicas deixaram de conviver em harmonia, os elementais, seres mitológicos e outras figuras da natureza e da imaginação humana se mudaram para a terra dos pensamentos e devaneios, onde vivem até hoje. Ah, eu não manteria esse sorriso tão largo se fosse você. Pequenos silfos e fadas-madrinhas são inofensivos e, sim, sortudo aquele que os encontra pelas esquinas da vida – mas, quem dera fossem os únicos seres que habitam essa floresta.
Não, não tenha medo. Eu estou com você. Sou o seu guia e, após tantos anos viajando de um pensamento a outro, eu aprendi a me defender das criaturas de intenções questionáveis. Por exemplo, trolls são bandidos fedorentos que atacam apenas tudo que for menor que eles. Se você é baixinho, não precisa se preocupar. Aprenda com os gatos a arquear a coluna, erga os bracos e os aponte para o céu o mais esticados que puder, faça gestos largos, tudo para parecer maior. Trolls são bobos o suficiente para acreditar em qualquer truque que você aplicar. Mesmo subir numa cadeira os confudiria!
Outra categoria que você precisa manter em mente é quanto aos elfos. Não todos os tipos. A maioria dele cuida dos próprios afazeres e não faz mal a ninguém. Elfos da noite, no entanto, são criaturas chatinhas que gostam de pregar peças em viajantes. Eles confudem os caminhos, transformam esquerda em direita, direita em esquerda, e causam pesadelos quando você se deita após um longo dia confuso. O que você utilizaria contra eles? Não, não funcionaria. Pense mais um pouco. Está bem, contarei a você. O remédio mais eficaz contra elfos brincalhões trata-se de, nada mais nada menos, aplausos. Eles detestam barulho de qualquer sorte, mas bater palmas de maneira insistente parece irritá-los mais profundamente e eles se afastam depressa. Eu acho que os estalos secos doem nos ouvidos deles, coitados.
Agora, por precaução, talvez devêssemos bater palmas. Preparado? Vamos, bata palmas. Mais alto! Vamos, meu amigo, mais alto. Com alegria, com todo o coracao, com força e energia! Isso, muito bem. Você aprende depressa. Tenho certeza de que não um elfo da noite sequer pelas redondezas. Graças a você todos encontrarão os caminhos que procuram e terão bons sonhos essa noite.
Vamos por aqui, cuidado com a teia de aranha. Por que a aranha era verde-esmeralda? Eu não sei, nunca perguntei. Você quer voltar para perguntar? Dona aranha, se a senhora não se importar o meu amigo quer fazer uma pergunta um tanto pessoal, mas não o leve a mal. É a primeira vez dele viajando por essas bandas e nunca viu criatura tão bonita quanto a senhora. Vamos, amigo, pode conversar com ela. Os olhinhos brilhantes dela estão atentos e receptivos. Sim, ela fala como eu e você.
Muito obrigada, muito obrigada. A minha cor? A minha mãe era verde-esmeralda.
Obrigado, minha senhora. Boa noite! Vamos, amigo, não estamos muito longe. Dobramos à direita aqui e, sim, exatamente como eu lembrava, atravessaremos essa ponte de cordas. A ponte é longa e um pouco desgastada, mas é segura o suficiente. Você quer que eu vá na frente? Tudo bem, mas não tome muita distância de mim. Mantenha-se por perto, não é tão dificil assim. Eu não gosto dos estalidos que as cordas fazem nem de como a ponte balança. Você acha que... Oh não, meu amigo, não olhe para trás agora, pois as notícias não são tão boas.
Não, você me desobedeceu. A sombra no início da ponte? É alta demais para ser um homem. Eu não sei... eu acho que... oh, sim, esse uivo. É um lobisomem. Sim, um lobisomem de verdade. Ele está vindo na nossa direção? Oh não, eu não consigo andar mais rápido que isso. A ponte balança demais. Tudo bem, eu vou mais depressa. Vamos correr para o outro lado. Vamos, meu amigo, corra! Não olhe para baixo, é muito alto. O rio corre depressa embaixo! Ah, ajude-me, uma tábua soltou abaixo do meu e a minha perna prendeu no buraco aberto na ponte. Eu sinto muito, eu derrubei o lampião. Ele cai como uma estrela cadente em direcao ao rio e nós ficamos iluminados apenas pela luz prateada da lua cheia, que essa noite reina soberana num céu sem nuvens. Agarre a minha mão e me puxe o mais forte que puder. Vamos, força, meu amigo. Coragem!
Isso, muito bem. Obrigado, devo minha vida a você. O lobisomem se aproxima. Não poderemos correr dele para sempre. Lobisomems são muito fortes e farejam a presa a longa distância. Ele devia estar nos seguindo desde que entramos na floresta. Vamos pular no rio. Não há mais nada o que fazer. Ele está muito perto, eu vejo as fileiras de dentes dele brilharem afiadas. Segure a minha mão e vamos pular da ponte quando eu contar até três! Preparado? Um... dois... três!
Nós caimos depressa cortando o ar frio da noite e as nossas vestes e cabelos rodopiam desordenadamente. Não solte a minha mão, meu amigo. A medida que podemos ouvir cada vez mais alto o som de água corrente aproximando-se dos nossos pés, sentimentos no rosto e nos braços a crescente humidade do ar. Estamos cada vez mais perto do rio. Mais perto... mais perto... não solte a minha mão! Nós atingimos o rio com estrondo e espalhamos muita água. Vamos, mantenha a cabeça na superfície e bata as pernas, mas não lute contra a correnteza e não solte a minha mão. Eu tentarei nadar para uma margem e puxarei você comigo. A água está tão fria, mas tente não pensar nisso. Continue batendo as pernas.
Veja, uma rocha! Vamos, segure firme. Os seus dedos escorregaram! Vamos, agarre o meu pé! Segure firme em torno do meu tornozelo. Socorro, alguém nos ajude! Vamos gritar por socorro. A festa do meu amigo não é muito longe. Alguém nos escutará e virá nos ajudar. SOCORRO.. SOCORRO.. ALGUÉM NOS AJUDE! Não se preocupe, meu amigo, tenha esperanças.
SOCORRO..! Oh, vê as sombras que se aproximam da margem esquerda? Estamos salvos! São seres da natureza que se aproximam ao nosso chamado. Vê a luz branca incandescente que caminha em direção ao rio? É o meu amigo! Ele é a luz que brilha na escuridão quando reanimamos a esperança ao fim de uma batalha dificil. Vamos, continue segurando firme. Você me salvou uma vez e eu o salvarei dessa vez. Não falta muito. Ele está apontando o bastão para nós e eu vejo os cristais brilharem na nossa direção, lançando uma rede de luz que nos retira da água e nos leva até a margem. Estamos salvos, meu amigo.
Mago Cristalino, muito obrigado! Você nos salvou a vida!
Eu não teria deixado um velho amigo à própria sorte. E também você, explorador recém-chegado.
O Mago Cristalino cuida dessa floresta e de todos que nela vivem. Seres mágicos, animais e plantas. Ele é o velho amigo que eu queria apresentar a você. Não se acanhe, as barbas dele são longas e prateadas, mas o espírito preferiu permanecer jovem como o seu.
O jovem explorador não precisa ter medo de mim. As rugas no meu rosto datam dos anos em que homens e seres mágicos viviam juntos, mas as minhas idéias são jovens. Como você, eu também acredito na força da imaginação e tenho esperanças de que algum dia mais humanos como você possam vir nos visitar. Hoje é o meu aniversário e eu o convido a minha festa. Vocês dois venham conosco à clareira, onde os faunos tocam flautas, as fadas dançam no ar e as flores nos dão de beber orvalho açucarado.
Vamos seguir o Mago Cristalino e os outros seres até a clareira. Não se importe com as fadas que jogarem flores sobre os seus cabelos. Elas gostam de enfeitar tudo com pétalas. Também não se importe se as ninfas não pararem de olhar para você. Elas não estão acostumadas a ver muitos humanos por esses lados. Você não deve temer os centauros – metade homem, metade cavalo – e o olhar severo que carregam. A verdade é que são as criaturas mais bondosas e leais que você encontrará na natureza.
Sentaremos ao pé do salgueiro-chorão e deixemos que as folhas deitem sobre os nossos ombros como uma capa verde-escura e nos seque da água do rio. Todos felicitam o Mago Cristalino e entram na dança em torno da grande fogueira erguida no meio da clareira. Você vê aqueles homens com pernas de bode? São faunos. Ninguem resiste à música deles, mas tenha cuidado para não se perder de si mesmo. Sempre que ouvir a melodia dos faunos, mantenha um ouvido fechado, do contrário acabará esquecendo quem é, de onde veio e para onde vai. O Mago Cristalino se aproxima de nós, as vestes douradas e o chapeu pontudo brilham como se ele carregasse dentro de si um sol particular. Ele deseja falar-lhe.
Meu jovem, eu admiro a sua presença de espírito e coragem excepcional. Vejo que está em treinamento e ainda irá em mais duas jornadas. Gostaria de dar a você essa varinha mágica encrustada com minerais retirados do mesmo rio onde pouco tempo enfrentou os próprios medos.
Obrigado, Mago Cristalino, o meu amigo jovem-aprendiz salvou-me a vida quando um lobisomem tentou nos atacar na travessia da ponte. Ele é merecedor dessa varinha e sei que ela o ajudará nas próximas jornadas rumo à iniciação na arte de viajar pelas terras dos devaneios.
Guarde a varinha consigo e use-a bem nos momentos de dificuldade, meu amigo. Boa sorte nas próximas provas.
Vamos nos juntar às sombras que dançam e pular de um lado para o outro como grilos malucos. Você consegue seguir os passos deles? É o ballet das criaturas da floresta, que saltam o mais alto que podem e deslizam no ar leves como pena. Vamos dançar até cansar, até nos sentirmos tontos de tantos rodopios e, após beber o orvalho das flores, vamos deitar no gramado na margem do riacho onde algumas criaturas observam as constelaçoes e a lua cheia que olha por nós como um farol no céu. Não, não aponte se você vir uma estrela cadente, do contrário uma verruga nascerá na ponta do dedo. Mas, não esqueça, faça um pedido. Eles sempre se tornam realidade ao final das histórias encantadas.
Está ficando tarde. O sol começa a nascer no horizonte. Vamos para casa. Adeus, amigos da floresta. Adeus, Mago Cristalino! Obrigado pela ajuda! Feliz aniversário! Agora, meu amigo, lembra o que eu ensinei sobre saber controlar a própria respiração? Para voltar ao mundo real concentre-se no destino de onde partimos, feche os olhos e inspire profundamente, depois solte o ar devagar, quando eu contar até três. Nos veremos na próxima viagem. Estarei aqui, em algum lugar entre a realidade e o mundo dos devaneios, esperando por você. Preparado? Um... dois... três!


Capítulo 2 – Viagem ao Reino dos Gigantes
Saudações, meu amigo! Eu tinha certeza que o veria novamente. Qual é o problema? Por que essa ruga na testa? Eu não vou pedir para que você esqueça as aflições da vida real, porque então viajar à terra dos devaneios não teria nenhum sentido. A sua jornada comigo serve de ensinamento para saber lidar com os problemas da vida sob uma perspectiva diferente.
Sim, eu já estive entre homens e mulheres e sei do que sofrem. Nesse universo paralelo, onde a imaginação reina soberana, também existem os mesmos sentimentos de frustração, medo, alegria, dor... e na minha terra nós também ficamos doentes como vocês humanos. Mas a verdade é que quando você está perdido em pensamentos e se deixa transportar para esse mundo dentro da sua cabeça, tem a oportunidade de lidar com quem você traz dentro de si, com as qualidades e os sentimentos que fazem de você quem é.
Para cada indivíduo na Terra o mundo dos devaneios tem algo diferente a oferecer e a jornada de cada um pode ser interrompida no momento que desejar. É como um plano de testes particular, que se você souber controlar e visitar com maestria, em cada viagem podera aprender mais sobre si mesmo e aplicar os ensinamentos na vida real, onde não botões que parem o tempo.
Tudo ficará bem. Está preparado à segunda viagem? Eu estou animado e estive esperando por você ansiosamente. A sua iniciação valerá a pena, tenha auto-confiança. Vamos, anime-se. Quer saber mais sobre essa nova jornada? Sim? Durante o tempo em que eu estive aqui e você esteve aí, passei visitando as terras rochosas. Andei de um lado a outro observando altas montanhas com picos eternamente cobertos por uma neve que não derrete e também estudando vulcões adormecidos, que definitivamente por aquelas bandas começaram a demonstrar um sono bastante inquieto.
Eu segui pelos vales, caminhando sobre o curso de rios que secaram uma boa centena de anos atrás, catando rochas com fósseis encrustados. Vê esse aqui? Eu tenho certeza de que era algum tipo de peixe com um chifre de unicórnio protuberante na testa. Uma beleza, não é? O fóssil está intacto! Mas, meu amigo, eu imagino que na época em que essa belezinha estava viva, nadar no rio não deveria ser um esporte tão seguro...
Continuei explorando a região, entrando numa caverna e outra, estudando rochas com novos minerais, até que... e você não vai acreditar... ou talvez acredite... aos pés de Thor, um vulcão extraordinário que mais parece um gigante vermelho adormecido, eu os encontrei! Dragões, meu jovem aprendiz, dezenas deles! Oh, sim, arregale os olhos, dragões não são criaturas fáceis de lidar. São parentes distantes das lagartixas, mas não há nada inofensivo sobre eles. Tive que correr léguas quando me encontraram! Eles me perseguiram dia e noite, cuspindo fogo na minha direção e a prova está na barra queimada das minhas vestes. Vê? Eu escapei por um triz! A perseguição durou muitos dias e ao final do quinto dia eu estava certo de que não o veria nunca mais, meus pés doloridos e minhas pernas fracas demais para continuar correndo, mas a história apresentou uma virada inesperada, como uma daquelas dancinhas que vimos no aniversário do Mago Cristalino.
Os dragões passaram tanto tempo no meu encalço que se acostumaram comigo. Em quase uma semana de perseguição eles já não mais lembravam por que estavam atrás de mim e simplesmente pararam, os olhinhos piscando confusos, entreolhando-se em busca de explicações. Eles conversaram entre si e não conseguiam lembrar por que estavam atrás de mim. Tentei explicar que o avesso também não fazia sentido. A conversa já não tinha mais sentido! Os dragões estavam cansados, eu estava cansado, e então voltamos todos juntos aos pés de Thor, mas dessa vez como amigos recém-feitos. Inacreditável, não é? A melhor parte dessa história ainda está por vir. Sente-se, sente-se... eu contarei.
No acampamento dos dragões, respirando a aridez das montanhas vulcânicas, conversamos sobre a vida na terra dos devaneios e a vida no mundo real. Os dragões pareciam entristecidos por nunca mais terem visto humanos por aquelas bandas e após certificar-me bem de que não estavam reclamando de algum buraco na alimentação deles, falei sobre você. Sim, você mesmo! Como eles ficaram felizes e impressionados de que após tantos anos um humano esteja em iniciação nos mistérios da imaginação e no controle do sonho acordado. Contei a eles que a sua segunda viagem por essa terra estava para começar e eles decidiram nos acompanhar. Eles querem conhecê-lo e acompanhá-lo nessa nova jornada. Eu espero que você não se importe. Não, não precisa ter medo. Os dragões estavam genuinamente interessados em ajudá-lo. Ah, eu sabia que você iria gostar da surpresa!
Está preparado para seguir viagem? Na vez passada seguimos por terra e dessa vez iremos por ar. Antes, no entanto, você lembra da técnica que eu ensinei? O segredo está na respiração. Inspire profundamente e expire devagar. Vamos, um... dois... três... Eu já nem preciso mais dizer, percebi que desde que nos encontramos você vinha fazendo os exercícios. Agora, feche os olhos e concentre-se na minha voz. Viajar por ar requer mais do que músculos relaxados! A sua mente, meu caro amigo, precisa estar leve como uma pluma. Pense em balões de hélio. Coloridos, brilhantes balões de hélio, daqueles que encontramos em parques de diversões, subindo ao céu.
Inspire e expire... Balões de hélio indo além da atmosfera terrestre... Inspire e expire... Está pronto? Abra os olhos. Estamos sobre uma colina e a grama é alta. Você vê como o vento sopra forte fazendo o gramado se curvar? Às vezes eu tenho a impressão de que esses pastos além da colina, estendendo-se além do horizonte como se nunca fossem acabar, lembram o mar. São como um oceano verde, não é verdade?
Eis aqui um presente. Sim, para você. E outro para mim. São respeitosos chapéus pretos de cavalheiro. Prove o seu. Eis aqui o meu. Oh, sim, você parece muito respeitável. E como eu pareço? Obrigado, obrigado. Você sabe o que eles têm a dizer aqui sobre dias de ventania como esse? Eles dizem solte o chapéu. Vamos, deixe o seu chapéu partir, não o agarre mais pelas abas. Se eles querem voar para longe, deixe que voem. Oh, vai o meu, para além da colina! E também o seu! Parece que competem numa corrida. Deixemos que eles sigam brincando no ar. Quero mostrar a você, do lado oeste, o grupo que aguarda por nós.
Meus amigos dragões, aqui está o humano de quem falei!
Oh, não se assuste com os rugidos nem com as labaredas de fogo escapando das gargantas deles. Eles o estão cumprimentando. Estão felizes em vê-lo. Vinte dragões das terras rochosas, com escamas negras e os olhos amarelos típicos dos lagartos da região. Sim, acene para eles, eles estiveram aninhados do outro lado da colina esperando por você durante todo esse tempo. Vamos descer e nos juntar a eles imediatamente.
Você vê o dragão com uma cicatriz sobre o olho direito? É o líder desse bando. Na língua dos homens o nome dele seria Bravura e ele quer pessoalmente encarregar-se de nos transportar durante a viagem. Vamos até ele. Bravura está fazendo uma reverência com a cabeça e nós devemos retribuir da mesma maneira.
Humano, é uma grande honra conhecê-lo. Nós, dragões das terras rochosas, temos ouvido muito sobre você e os seus feitos. A minha espécie não confia na sua, mas a sua predisposiçao a iniciar-se nessa terra mostra a coragem que valorizamos e respeitamos. Permita que o guiemos nessa segunda jornada.
Não se acanhe, jovem aprendiz. Diga a Bravura exatamente como se sente e ele compreenderá as suas alegrias e apreensões. Os olhos dele, tão amarelos como se ele carregasse nas órbitas dois sois, o observam com curiosidade. Quando a alma dos dragões está apaziguada como agora, eles se tornam criaturas muito leais. No seu mundo dizem que guerreiros tem coração de leão, mas aqui... Aqui os guerreiros tem coração de dragão, pela honraria cavaleiresca, a lealdade contínua e a coragem impertubável. Vamos subir nas costas dele, ele nos convida.
Estamos preparados para seguir viagem, meu caro Bravura.
Oh, tape os ouvidos, meu amigo. É o rugido de comando. O alto rugido do líder dos dragões, que pode ser ouvido há muitas léguas de distância. Segure firme, nós vamos levantar vôo! Não tema a altura, pois quanto mais alto ficamos, mais perto do céu estamos – onde se encontram os sonhos mais puros dos humanos! Vamos mais rápido, Bravura! Mais rápido, mais rápido! Segure firme, meu amigo! Veja, os outros dragões nos seguem de perto. São dezenove lagartos alados do tamanho de uma casa, voando tão proximos a nós como uma guarda pessoal. Eles cuidarão de nós durante essa jornada.
Olhe as montanhas e os vales lá embaixo. São tão pequeninos aqui de cima! Você vê o rio perto daquela colina? Ele forma a letra do seu nome, não é verdade? Oh, olhe para o horizonte! Estamos nos aproximando dos primeiros grupos em migração. Nessa época do ano muitos seres e espécies diferentes por aqui migram para outras regiões desse universo de devaneios, mas não para escapar de regiões frias. Eles migram simplesmente porque gostam de viajar. Gostam de estar em bandos nas alturas e de visitar novas regiões da imaginação humana.
Você vê aquele primeiro grupo despontando no horizonte? Não, não são centenas de borboletas. Olhe bem. Sim, é verdade, os seus olhos não estão pregando peças. São peixes voadores. Milhares de peixes coloridos, reluzentes como lâmpadas de néon nesse fim de tarde. Peixes azuis, amarelos, verdes, vermelhos, purpúreos... se eu soubesse que eles estariam por essas bandas eu teria trazido óculos escuros. Eles brilham tão intensamente enquanto deslizam pelos ares, as pequenas barbatanas batendo como asinhas miúdas, e rumam para o leste em busca, acredito, do Oceano Turquesa.
Vamos passar por perto deles, Bravura.
Por que esses peixes voam? Você não poderia esperar que por aqui peixes ficassem confinados no mundo das águas, não é mesmo? Esses peixes respiram fora d'água e voam como pássaros porque eles ousaram sonhar mais alto e tem coragem de sair da zona de conforto deles para ir mais distante. Oh, sim, muitos deles tem medo de atravessar a superfície dos lagos e rios onde moram – mas medo nunca foi razão suficiente para impedir alguém de seguir adiante. Você, jovem aprendiz, é como um deles – mas, é verdade, com braços no lugar de barbatanas.
Até logo, peixes voadores! Boa viagem!
Olhe para cima, meu amigo. Vê como o céu está pintado de muitas cores? As nuvens no horizonte deixaram de ser brancas e a medida que o sol desce e se esconde no horizonte elas se tingem de vermelho, amarelo e laranja. Oh, sim, eu vejo outro grupo migratório! São os unicórnios alados dos pastos do sul! O brilho prateado da pelagem desses cavalos sagrados faz com que pareçam muitas luas correndo no firmamento. Você vê o chifre na cabeça deles? Diz a lenda que se você tocá-lo com pensamentos puros terá direito a fazer um pedido.
Veja, meu amigo, eles saltam no ar como se percorressem uma estrada invisível. Unicórnios não foram feitos para serem motados ou domados. São criaturas livres e morreriam de tristeza se fossem presas a arreios. Vê como o chifre é alto e afiado? Mas unicórnios não são de guerra. Eles não atacariam ninguém e recuariam se atacados. A defesa deles está no coração pacifista. Quem seria insensível a ponto de comprar briga com eles? Não há animal de gesto mais cortês e puro do que eles.
Não, meu amigo, não se precipite a alcançar o chifre do unicórnio. Se você se inclina para alcançá-lo demonstra avaria. Seja paciente. Espere que ele ofereça a oportunidade a você. Mas esses unicórnios seguem apressados – eles devem estar em missão. Deixemos que eles sigam o curso deles em paz e outras oportunidades de fazer um pedido virão.
Bravura, vamos seguir apenas pouco mais adiante, pois o sol já nos deixou e a massa de nuvens acima de nós mostra o início de um tempo arredio. Oh, relâmpago! Não tema, meu amigo, as tempestades por aqui não são provenientes de forças naturais como no mundo de onde você vem. No mundo acima das nuvens moram gigantes, figuras humanóides tão altas quanto torres. Eles vivem sobre as nuvens porque se vivessem lá embaixo teriam que estar constantemente atentos para não pisar em ninguém ou nenhuma construção – e gigantes, cá entre nos, gostam de viver a vida despreocupados. Eles preferem sentar numa nuvem e nos observar como se fôssemos formigas trabalhando o dia inteiro. Ah, como eles riem de tanto trabalho! Gigantes acham que os seres pequeninos, como nos chamam, se preocupam demais.
O humor dos gigantes que moram na região define a maneira como as nuvens parecem para nós. Quando eles estão entediados, trabalham na atividade preferida deles, que é esculpir nuvens em diversos formatos. Para nos também é igualmente divertido. Você já viu uma nuvem em formato de estrela? Eu já vi! Cinco pontas perfeitas, uma perfeicao! Quando gigantes estão tristes, eles choram sem parar e do céu a chuva cai constante. O que chamamos de chuva, em verdade, se tratam das lágrimas dos gigantes. Eles se alimentam de banquetes imensos de frutas logo cedo pela manhã e nas últimas horas da tarde, e é o suco dessas frutas que tinge as nuvens nesses horários. Se você olhar para cima e inspirar profundamente durante o alvorecer e o anoitecer poderá sentir um peculiar cheiro cítrico invadindo-lhe as narinas.
Mas nuvens como essas que você vê agora não são um bom sinal. Gigantes podem ser criaturas bastante afeitas a permanecerem sentadas nas mesma nuvem por horas, mas predisposição à preguiça nunca foi sinal de pacifismo. Um gigante aborrecido pode lutar por horas em batalhas sangrentas, agressivas e às cegas. A visão deles não é muito boa por todos esses séculos em que viveram acima das nuvens, expostos ao brilho intenso do sol, que chega aos olhos dele diretamente. Percebe? Para nós as nuvens servem como um filtro aos raios solares – mas eles vivem acima dessa camada protetora. Por ter a visão ruim, eles brigam cegamente. Gigantes carregam pesados martelos prateados que eles giram no ar por horas na expectativa de ter realmente dizimado a fonte dos aborrecimentos deles. Cada vez que o martelo atinge o martelo de outro gigante, um clarão é produzido pelas faíscas dos metais em atrito. São os relâmpagos que você agora vê.
Eu não sei qual é a razão da briga, meu amigo. Nunca é possivel ter certeza quando se trata de gigantes nervosos, mas na maioria dos casos o motivo é tão pequena quanto o menor dos grãos de areia. Mais relâmpagos! Os gigantes estão em batalha. Espera um pouco, você vê aquele brilho perto das nuvens? Seria..? Você vê aquele brilho prateado? Seria um unicórnio? Não é possivel, nós passamos pelo bando de unicórnios há pouco tempo. Você vê aqueles raios prateados? A luz é opaca, mas desconfio que sejam unicórnios correndo acima das nuvens! Pobres criaturas, eles não sobreviverão a fúria de gigantes coléricos...
Você diz que quer ir ajudar os unicórnios? Tem certeza? Os gigantes estão além de qualquer criatura que nós possamos enfrentar. Quer ir acima das nuvens mesmo assim? Você tem muita coragem, meu amigo. Bravura, vamos perfurar as nuvens e ir ajudar unicórnios com problemas! Segure firme, estamos subindo depressa. Os outros dragões nos seguem de perto, perfurando as nuvens com os corpos alongados como projéteis!
Já estamos acima das nuvens. Olhe para baixo e você verá como o chão parece sob constante nevoeiro, mas se atreva a caminhar ali e você despencará dos céus. Gigantes são figuras poderosas, mas a matéria de que eles são compostos é mais sutil do que a minha ou a sua, fazendo-os mais leves do que o vapor que forma as nuvens. Se você permanecer comigo e Bravura estará seguro.
Vamos investigar o que está acontecendo. O som dos gritos dos gigantes é retumbante, eles são a fonte dos trovões que você escuta em dias de tempestade. Mas que criaturas nervosas! Você não encontrará humor pior que o deles por aqui. Oh, Bravura, cuidado! Atrás de você! Oh, foi por pouco, ainda bem que vi os gigantes a tempo. Não, eu não compreendo por que eles estão brigando. Vê como eles são altos? Mais altos do que qualquer prédio que você tenha visto? Oh, sim, acredito. A aparência deles é descuidada porque são preguiçosos demais para pentear os cabelos, que normalmente crescem muito longos e emaranhados abaixo dos ombros. Os pés também nunca vêem sapatos, mas não são sujos como você poderia esperar. Aqui no alto, caminhando sobre nuvens, não há terra ou gramados que façam a pele parecer encardida ou verde-escura de clorofila esmagada entre os dedos.
Os braços e pernas são roliços e fortes. Percebe como eles giram os martelos no ar? Uma martelada daquelas na cabeça tem a força de mil touros! Bravura, vamos manter distância até compreender a razão da briga. O que eu estou dizendo..? Nunca vi sentido em briga de gigantes... se você os interrompesse e perguntasse qual é a razão, nem eles mesmos saberiam explicar! Mas onde estão os unicórnios? Eu não os vejo em parte alguma. Teria o brilho prateado realmente sido um unicórnio? não tenho certeza... Talvez devêssemos retornar, meu amigo, não devemos interferir em duelos de giganteseles mesmos saberão parar naturalmente.
Bravura, vamos retornar... Não, espere um pouco! O que diz, meu amigo? O que você vê? Onde..? Oh, sim, está certo! Eu também os vejo. Dois unicórnios encurralados entre os gigantes! Os gigantes são tão altos e corpulentos que eu não tinha visto as pobres criaturas no meio da briga deles. Mas no que eles foram se meter! Oh, veja, o resto do bando de unicórnios que tínhamos encontrado há poucos minutos agora se aproxima de nós. Bravura, caro dragão, aproxime-se do líder dos unicórnios para que possamos conversar com ele.
Meu amigo unicórnio, vejo que dois membros do seu bando está com problemas. O que aconteceu? Por que eles estão no reino dos gigantes?
Aqueles são unicórnios mensageiros. Eles carregavam notícias de gigantes de nuvens longínquas a estes dois gigantes, mas aparentemente antes que pudessem partir em segurança os gigantes iniciaram uma briga e eles não conseguiram escapar. Nós captamos a vibração deles, mas agora não sabemos o que fazer para ajudá-los. Eles estão presos entre os dois gigantes, que se golpeiam sem parar. Se os gigantes ao menos parassem de mover os braços daquela maneira eles teriam alguma chance de escapulir pela brecha entre eles, mas não podemos atacar os gigantes, é contra a nossa natureza....
Não fique triste, honrado líder dos unicórnios. O meu amigo humano e eu queremos ajudá-lo!
Eu sou Bravura, líder dos dragões das terras rochosas, e não tenho nada contra afastar esses gigantes à força para ajudar os unicórnios do seu bando. Você pode contar com os meus dragões.
Dragões e unicórnios nunca formaram parceria. A que devemos a ajuda do seu coração de cavaleiro?
A criança humana entre nós provou-nos que honraria segue além de coragem desenfreada. Nós, dragões, costumamos atacar pelo simples prazer de entrar numa batalha. A verdade, no entanto, é que não significado na luta sem um verdadeiro motivo. Mas essa noite os dragões lutarão para defender amigos! Dragões, atenção ao meu comando! Preparados?.
O rugido do líder dos dragões! Nós vamos nos aproximar dos gigantes! Oh, segure firme, os gigantes vão fazer de tudo para afastar os dragões de perto de si. Para eles somos como pequenos insetos chatinhos que ficam zunindo ao lado das orelhas deles. Os dragões começaram a cuspir labaredas de fogo para assustar os gigantes. Oh, cuidado unicórnios! Eu sei, meu amigo, as bolas de fogo são perigosas aos unicórnios. Vi como aquele quase se queimou. O que poderemos fazer? Não há como atacá-los sem que os unicórnios estejam em risco. Você teve uma idéia? O que pretende fazer? Oh, cuidado, segure a minha mão. Bravura precisou desviar depressa e você quase se desequilibrou. Atenção, meu amiguinho, mas o que você dizia? Oh, é verdade, a varinha que o Mago Cristalino deu de presente a você! Você deve apontá-la aos gigantes e fazer uma mágica para os impedir de dar socos e chutes. Não se preocupe, eu sei que você nunca aprendeu bruxarias, porem mágica não é tão dificil assim quando se tem uma mente de imaginação afiada. Eu vou ajudá-lo, mas antes... Bravura, temos um segundo plano. Cessar fogo, cessar fogo. O nosso amigo humano utilizará mágica para impedir os gigantes.
Cessar fogo, dragões! Eu sobrevoarei a cabeça deles para ampliar a visão de alcance.
Segure firme, meu amigo. Agora ouça bem. Mágicas feitas por seres humanos nem sempre tem o resultado esperado, mas se você se concentrar bem terá capacidades parecidas com as de qualquer bruxo ou bruxa da terra dos devaneios. O que você precisa fazer é focar os pensamentos no resultado que deseja obter, imaginando exatamente cada detalhe da mágica que pretende realizar e então apontar a varinha para os gigantes. Essa varinha é composta de minerais que irão estender a intenção dos seus pensamentos em direção ao ponto desejado, mas não se esqueça de se concentrar bem.
estamos acima das cabeças dos gigantes. Não tenha medo da altura, eu estou com você. como os unicórnios tentam escapar e são obrigados a recuar a cada movimento dos gigantes? O problema está nos braços e nesses gestos desornados. Se pudéssemos colocar um fim nesses movimentos frenéticos! Você tem uma idéia? Uma corda, sim, para prender as mãos deles! Mas, meu amigo, precisaria ser uma corda forte o suficiente para que eles não se soltem de repente. Quando você estiver imaginando a corda, pense na matéria mais forte que você conheça. Pense em algo que não poderia se romper por mais que os gigantes se debatam, para que os unicórnios possam escapar em segurança. Você tem algo em mente? Pense bem... Ah, teve uma idéia? Está preparado? Então vamos entrar em ação.
Concentre-se... concentre-se... preciso que pense em algo muito forte, algo impossível de quebrar! Concentre-se... aponte a varinha para os gigantes, agora! Sim, está funcionando! Vê as cordas de luz dourada em torno dos pulsos deles? Eles derrubaram os martelos. E então em torno das pernas! Boa idéia! Oh, não, os gigantes estão desequilibrando. Cuidado, Bravura, um dos gigantes está caindo na nossa direção! Segure firme, meu amigo. Oh, não, você está escorregando. Segure a minha mão! Não solte! Vamos, força... Cuidado..! Não! Bravura, o meu amigo caiu! A criança humana despencou das alturas, eu o vejo cair depressa como uma estrela cadente! Oh, não, que tragédia..! Alguém nos ajude! Oh, o líder dos unicórnios o apanhou no ar! O meu amiguinho está salvo! Salvo! Veja, os dois unicórnios que estavam encurralados agora voltam em segurança ao resto do bando. Missão cumprida, Bravura, missão cumprida... Dragões e unicórnios, vamos todos descer às colinas abaixo das nuvens. Mas, antes, meu amigo humano está bem? Como você está se sentindo? Um pouco zonzo? É natural – mas alegre-se, você salvou os unicórnios em perigo. Antes que voltemos a terra firme precisamos, no entanto, soltar os gigantes. Aponte a varinha novamente para eles e imagine que as cordas estejam soltas. Oh, sim, vê como elas evaporaram no ar? E os gigantes, sentados nas nuvens, parecem apaziguados. É hora de voltar para casa, a nossa missão aqui é terminada.
A descida é agradável e os meus pulmões se enchem de um ar alegre. Estou satisfeito de que tudo acabou bem e de que você aprendeu a utilizar mágica. Veja, nos aproximamos do solo. Oh, um pouso perfeito, meu amigo Bravura. Correrei ao meu amigo humano, que me parece um pouco pálido e o ajudarei a descer do líder dos unicórnios. Terra firme, amiguinho. Adorada terra firme. Vamos, sente nessa rocha. Você foi extraordinário em cima. Todos o observam com tanto orgulho e eu estou muito satisfeito de ser o seu amigo e professor. Não é todo humano que tem a honra de conhecer um dragão e sobrevive para contar a história e ainda por cima se torna companheiro de viagem deles. Também não é todo humano que tem o prazer de conhecer unicórnios e o desprazer de conhecer gigantes. Mas, certamente, nunca vi nenhum humano com habilidades mágicas tão fortes quanto as suas. Veja, Bravura e o líder dos unicórnios se aproximam, eles estão impressionados.
Os dragões precisam retornar às terras rochosas, o nosso lar, de onde estivemos muito tempo distante. Para os dragões é primordial que estejamos sempre por perto das terras onde nascemos, para lembrar a nós mesmos de quem somos e reavivar a essência que carregamos. Mas antes, em nome do meu bando, eu gostaria de entregá-lo uma escama das minhas costas como prova da força dessa nova amizade entre as nossas espécies. Carregue-a sempre consigo e a coragem cavaleiresca dos dragões não o falhará nos momentos mais difícies.
Veja, meu amigo, a escama é grande como um escudo e de matéria inquebrantável. Guarde-a sob a camisa, quem sabe venha a servir de proteção! Muito obrigado, Bravura, não esqueceremos a sua ajuda. Até logo, dragões! Até a próxima! Vamos acenar aos dragões, esses valorosos largatos alados, que já voam alto rumo às terras rochosas. Agora falemos com os unicórnios, que nos observam tão puramente.
Unicórnios não acreditam em nenhum tipo de briga ou confrontamento e teríamos perdido dois dos nossos amigos caso vocês não tivessem aparecido para nos ajudar. Quando a criança humana utilizou mágica nos gigantes para impedí-los de machucar os unicórnios, percebemos que algumas lutasas lutas limpas, de boa vontade, sem golpes ou agressividade, as lutas que partem do coraçãosão necessárias. Nós acreditamos que essa criança humana talvez esteja entre nós não apenas para aprender a utilizar a própria imaginação, mas também para nos ensinar uma ou duas lições sobre os valores que os humanos carregam dentro de si. Em agradecimento a ajuda prestada aos unicórnios....
Oh, meu amigo, ele fez uma reverência! Sabe o que isso significa? Ele está oferecendo o chifre para ser tocado por você. Vamos, não tenha medo. Aproxime-se e ao tocar o chifre faça um pedido de todo o coração. Pedidos dessa natureza sempre são realizados. Vamos... não se acanhe. Oh, que extraordinária oportunidade! Muito obrigado, caro unicórnio. Muito obrigado! Até logo, esperamos vê-los noutra oportunidade! Ah, eles se afastam rumo aos céus.
Agora está ficando tarde e você também precisa ir para casa. Ah, quantas aventuras! Oh, veja, os nossos chapéus retornam! Eles sempre retornam as cabeças de onde partiram. Sempre, invariavelmente... Ai.. me espetam os olhos quando voltam. Você me parece feliz. Agora falta muito pouco ao final da sua iniciação. A terceira e última jornada se aproxima e, aviso, ela não sera fácil. Treine a sua respiração e concentração durante os dias em que não nos virmos. Alimente-se bem e durma cedo para estar mais forte e preparado quando nos encontrarmos. Agora, meu amiguinho, como eu ensinei... feche os olhos e inspire e expire quando eu contar até três... pense no local de onde partimos do seu mundo. Preparado? Um... dois... três..!
Capítulo 3 – Viagem ao Navio do Pirata Fantasma
Meu amigo humano! Fico feliz em vê-lo! Vejo que está mais forte e mais corado. É bom encontrá-lo nesse estado para a nossa terceira e última viagem. Essa nova jornada, para completar o ciclo, será por água, viajando submersos no Oceano Turquesa. Você diz que gosta de nadar? Ah, meu amigo, o Oceano Turquesa não é como nenhuma piscina ou mar da Terra. A nossa terceira jornada, receio informar, não será nenhum passeio tranquilo à praia, embora possamos combinar agora mesmo uma visita minha para qualquer dia depois da iniciação. Sim, esse tal Domingo pode vir junto e vocês me mostrarão por que as crianças humanas parecem gostar tanto de nadar nesses oceanos da sua gente.
O mar, nessa terra de sonhos absurdos, é um ambiente muito diferente comparado aos universos terrestres e aéreos. A água é um elemento fluido e está em constante movimento, favorecendo o encontro de muitas criaturas de natureza distinta. Uma hora você está observando os peixinhos dourados que se escondem nos corais. Noutra, quando mal se espera, uma corrente marinha trouxe uma gigante serpente do mar para perto de você! Há regioes embaixo d'água onde os raios de sol não alcançam e nessas profundezas, onde é sempre frio e absolutamente escuro, moram seres dos quais não devemos falar para não atrair pesadelos... ou, no nosso caso, para não os atrair de verdade. Por razões como essas e outras, por toda a insegurança que é a vida no mar, os seres marinhos são arredios e não confiam em ninguém. A lei é cada um por si e se você é de alguma espécie solitária, não pertence a nenhum bando, precisa saber se esconder muito bem – do contrário... bem, do contrário acabará se metendo em sérios problemas.
Por essas propriedades o fundo dos oceanos é o melhor lugar para guardar tesouros. Ninguém se arriscaria tanto a aventurar-se nesse universo de tantos perigos para tentar alcançar segredos alheios. Em primeiro lugar, no nosso caso, está um pequeno problema respiratório. Em segundo lugar, outro pequeno problema de topar com criaturas que não podemos derrotar. E, finalmente, a certeza de encontrar o dono do tesouro colérico atrás de nós. Sim, seria loucura partir numa viagem assim. Não se preocupe, eu não pretendo submetê-lo a nenhuma caça ao tesouro. Claro que não, eu jamais pediria que roubasse pertences alheios. Mas não existe nenhuma regra quanto a simplesmente alcançar o baú no fundo do oceano e retornar à superfície! Eis o mapa para o tesouro do Pirata Fantasma que certa vez ganhei numa aposta contra outros viajantes. Eu disse que conseguia comer cem cerejas em dez segundos e consegui. Gosto de cerejas e a verdade é que consigo comer cem delas em cinco segundos! Adicionei mais cinco apenas para não ter uma indigestão.
Veja, o mapa aponta para esse local no oceano. Há mil anos um navio pirata afundou nessas águas e consigo levou um baú de tesouros. Diz a lenda que o Pirata Fantasma ainda o guarda, temeoroso de que outros piratas venham roubar-lhe as moedas e jóias preciosas. Lendas no meu mundo, como você já deve ter percebido, são lei! Desceremos ao local do naufrágio e daremos uma boa olhada no tesouro. A sua iniciação estará completa quando retornarmos à superfície sãos e salvos. Gostou da idéia? Oras, por que a expressão preocupada? Você é o humano que me salvou de um lobisomem e lutou contra gigantes para salvar unicórnios. Não tenha medo, tudo ficará bem. Lembre-se de que não estará sozinho e carrega consigo a confiança dos seres mágicos que conheceu nas jornadas anteriores.
Preparado? Lembra da técnica de respiração que eu ensinei? Vamos lá, quando eu contar até três preciso que inspire profundamente e expire sentindo os músculos se tornarem cada vez mais relaxados. Um... dois... três. Dessa vez feche os olhos e concentre-se no ar que entra e sai dos pulmões. Um... dois... três. Muito bem, agora mais uma vez. Um... dois... três. Abra os olhos. Opa, cuidado para não desequilibrar. Sim, você está num balão! O meu bom e velho balão vermelho, remendado aqui e ali, mas funcionando lealmente. Eu contei que viajava, mas não havia contado como! Há muitos séculos venho explorando os quatro cantos desse mundo feito de sonhos e anseios humanos, vendo do que a imaginação humana é capaz, buscando compreender o que os homens trazem no coração – durante muitos séculos eu os estudei viajando no meu balão, nessa máquina que desliza silenciosa nos ares. E agora ele nos carrega ao ponto onde mergulharemos.
Veja o oceano logo abaixo de nós. viu água tão azul quanto essa? O Oceano Turquesa é a principal jóia do mundo dos devaneios, mas não se deixe hipnotizar para o que sorri para você. Os sorrisos mais largos tem mais dentes que pudessem abocanhá-lo quando distraído. Vamos mais um pouco para frente... mais um pouco... mais um pouco... Ah, sim, percebe o X no mapa? Se esse mapa estiver certo, nós estamos logo acima do navio pirata naufragado. Como eu posso ter certeza? De acordo com o mapa logo acima de nós encontraremos uma nuvem em espiral. Cabeça para cima, olhos para o céu. Percebe agora? Vamos nos preparar para mergulhar. O balão esperará por nos aqui na superfície.
É só passar uma perna e depois a outra, então... Oh, qual é o problema? Sim, sim, você está certo! Como iríamos respirar embaixo d'água? Você é uma criança esperta e atenta. Como eu sou esquecido... Hum, vê a bolsa logo ali? Dê-me ela aqui. Veja o que eu trouxe. Não, não são simples aquários para peixinhos – são nossas máscaras de ar. Vamos, coloque uma redoma em volta da cabeça. Ah, eu sabia que iria caber perfeitamente. A minha é um pouco mais problemática, eu não sei se a minha cabeça vai passar... vejamos... oh, sim, cabe sim. Usando essas máscaras também poderemos conversar embaixo d'água, mas procure falar mais alto porque a voz sempre soa um pouco abafada. Está pronto? Não saia de perto de mim. Aqui, segure a minha mão, vamos pular juntos. Um... dois... três!
Se você não souber nadar bem, não se preocupe. Eu tive uma idéia. Vou prender uma corda em torno da minha cintura e você pode segurá-la, assim eu puxarei você sob a água. Vamos testar. Eu vou nadar até aquele coral e você me diz como a técnica está funcionando. A água está na temperatura perfeita, não é verdade? Nem muito fria nem tão morna. E eu acho que estamos com sorte, porque o oceano hoje parece tranquilo. Aqui, chegamos ao coral. Como foi a carona? Acha que poderemos viajar assim? Para ajudar você também pode bater as pernas, mas não vejo problemas em tê-lo simplesmente deslizando ao meu lado. Da última vez em que estive viajando por essas águas uma tartaruga gigante ensinou-me essa modalidade de transporte. As tartarugas daqui não confiam muito em ninguém e preferem ficar caladas mesmo quando a cumprimentamos. Elas normalmente usam a idade como desculpa e fingem não escutar. Mas a tartaruga que eu conheci era prima distante de uma outra tartaruga, amiga antiga, que conheci no Lago Verde. A minha amiga tartaruga escreveu uma carta à prima e foi assim que essa tartaruga do mar confiou em me ajudar como guia. Ela me mostrou boa parte da região a qual estava acostumada a viver, carregando-me desse mesmo jeito que estamos viajando agora, mas para o resto do oceano ela não ousou seguir. Eu tive que me aventurar sozinho algumas vezes, mas nunca fui muito além. Essa área em que estamos, por exemplo, visito pela primeira vez. Mas não tenha medo. Tudo ficará bem.
Vamos seguir viagem, pois embaixo d'água ninguém pode perder tempo. Você está me escutando bem? Ótimo, então vamos agora mesmo. Eu sei que o assustei um pouco com a descrição que fiz da vida no Oceano Turquesa, mas não deixe que medo prematuro ou temores de qualquer sorte possam anuviar a visão que você faz dos lugares que visita pela primeira vez. Vamos, meu amigo, olhe ao redor. Percebe como embaixo d'água você fica mais leve? É como se a mão invisível do oceano o carregasse de um lado a outro por esse universo fluido.
Se você prestar atenção, e depois usar um pouco a sua imaginação, notará que a vida aqui embaixo não é tão diferente da vida lá em cima. Veja os cardumes de peixes cortando o oceano mais próximos a superfície. Eles lembram as nuvens que passeiam pelo céu. Se você olhar para o chão marinho encontrará estrelas e terá... veja só... dois céus! Um acima da cabeça e outro logo abaixo dos pés! No fundo dos oceanos também há altas cadeias de montanhas e até vulcões. É como o mundo de onde partimos, porem tomado por camadas e mais camadas de água.
Oh, veja, peixes voadores. Ah, eu sempre fico impressionado com a variedade de cores. Eles estão indo para cima, devem cruzar os céus e buscar algum lago ou rio para explorar. Vê aqueles bichinhos ali sobre os corais? Não, não são caranguejos. São aranhas vermelhas do mar. Criaturas de terrível gênio. Simplesmente mal-educadas e venenosas! Elas picariam você a menor aproximação dos corais onde trabalham esculpindo seixos. Mas, cá entre nos, são bastante trabalhadeiras. Eu nunca vi animais mais dedicados ao trabalho do que aqueles. Passam horas limpando as conchas que encontram e nunca se cansam. São as incansáveis máquinas de trabalhar do mar! Vamos continuar – não devemos chamar a atenção delas.
Eu vou dar mais uma olhada no mapa para me certificar de que estamos indo na direção certa. Oh, sim, sim... a linha do Equador não está muito distante de nós! Vamos um pouco mais a frente e então... sim, eu estava certo. Vê aquela linha dourada cruzando o oceano? É a linha do Equador! Não, não podemos atravessá-la sem comemoração. Nenhum viajante cruza a linha do Equador pela primeira vez e não passa pelo juramento. Está preparado? Não tenha medo. Vamos atravessá-la. Oh, sim, como eu esperava, aí vem eles. Os súditos de Netuno, o rei das águas.
Ouça bem, antes que os tritões e as sereias se aproximem de nós. Esses seres mágicos são um bocado sensíveis e vingativos quando se sentem ofendidos. Seja você mesmo, mas cuidado com o que diz. É dificil acalmar uma sereia depois que o sangue subiu-lhe a cabeça.
Nós somos a corte do rei Netuno e percebemos que você, criatura do mundo dos homens, atravessa a linha do Equador pela primeira vez, em clara demonstração de que tem coração de explorador. Mas para continuar por mar de um hemisfério a outro precisara fazer o juramento de Netuno de que respeitará essas águas e delas tirará apenas o que for oferecido de bom grado, sob pena de banimento para a escuridão abissal ou naufrágio caso quebre essa sagrada lei.
Você vê como a sereia diante de si é de rara beleza? Os cabelos compridos, amarelos como girassóis, movendo-se na água como se tivessem vida própria. Mas não se deixe enganar pela beleza dela. Ela usaria os próprios cabelos para amarrar-lhe as mãos caso fose preciso e a levaria a força para as cavernas oceânicas, de onde nenhuma criatura nunca voltou. Vamos, meu amiguinho, diga-lhe que está disposto a prestar o juramento. Oh, muito bem, agora um tritão colocará o colar de conchas de hermitão ao redor do seu pescoço e dirá as palavras que precisa repetir. Repita claramente o que ele disser, em voz alta, para não haver nenhuma dúvida de que o seu juramento é sincero.
Agora erga a mão direita, antena ou barbatana, se for o caso, e repita comigo: eu, ao atravessar a linha do Equador pela primeira vez, juro solenemente que não enganarei, não roubarei e não tirarei nada do mar que não me for dado. Respeitarei o reino de Netuno dentro e fora dos seus limites e estou disposto a cumprir a pena perpétua de confinamento nas cavernas abissais caso quebre a minha palavra.
Muito bem, meu amigo! Muito bem! Agora dance em comemoração com as sereias e os tritões, pois esse é um momento especial em que o reino do mar aprova a sua presença. Parabéns! Agora eles vao retirar o colar do seu pescoço e não se esqueça de fazer uma pequena reverência quando estiverem se afastando. Até logo, súditos de Netuno! Até logo! Viu? Não foi tão difícil assim. A maioria dos navegadores teme essa etapa da jornada, mas quem respeitar o mar não precisa temer a fúria do rei das águas. Apenas aqueles que descumpriram as regras de conduta nas águas foram atraídos pelos cantos hipnóticos das sereias e os navios deles encontraram triste destino nas rochas.
Mas vamos continuar, não estamos muito longe do navio naufragado. Segure a corda novamente e continuemos nadando. Agora não falta muito, meu amigo, você está tão perto de terminar a iniciação. Oh, sim, veja! Ali está o navio! Vamos contemplá-lo um pouco a distância primeiro, antes de nos aproximarmos. Sempre há algo tão triste em navios naufragados... Vê? Há muito mais que a construção em ruína sob a água, ou a lembrança da tragédia que levou tantas vidas. Quando olho para navios afundados eu vejo sonhos e anseios que afogaram junto com eles. Você já teve algum sonho ou idéia que abandonou por uma razão ou outra? São pensamentos que morrem no tempo e sobre os quais nos esquecemos naturalmente, mas quando observo esses navios é como observar a fotografia de uma idéia ou projeto morto. É a lembrança de um plano que não foi bem-sucedido.
Vamos nos aproximar mais. A pintura já não existe e o navio partiu ao meio por não aguentar o peso de si mesmo ao girar descontrolado no redemoinho que causou o naufrágio. Vê as escotilhas com os vidros quebrados? Vamos nadar naquela direção e espiar o camarote além daquela escotilha! Vamos... Oh, não! Cuidado, meu amigo, homens-tubarão! Muito cuidado! Vamos nadar depressa. O quê..? Eu estou preso. A corda prendeu numa armação do navio. Eu não consigo me soltar, meu amiguinho, o nó que fiz em torno da cintura foi apertado demais para que a corda não soltasse por mais que eu puxasse você. Vamos, proteja-se. Nade para longe, os homens-tubarão se aproximam e eles não tem misericórdia de nenhuma criatura no mar. O que você está fazendo, meu amigo? Não, não seja o meu escudo, eles atacarão você! Salve-se enquanto ainda há tempo!
Eles trazem lanças afiadas e se preparam para lançá-las contra nós. Saia da minha frente, meu amiguinho humano, se você morrer não haverá razão para o mundo dos devaneios. Quem sonhará e nos manterá vivos por intermédio da imaginação? Eles não precisam de mim, mas você é necessário a continuação desse mundo. Por favor, salve-se! NÃO! Meu amiguinho foi atingido no peito pela lança de um homem-tubarão. Não morra, meu amigo, não morra! Oh, abriu os olhos. Vejo que ainda está vivo... O que traz na mão? A varinha do Mago Cristalino? Isso, muito bem! Uma rede mágica prendeu os homens-tubarão e os arremessou para longe de nós!
Meu amigo, não morra. Deixe-me deitá-lo no chão marinho. Eu vou levá-lo de volta para casa, não se preocupe. Eu vou arrancar essa lança de você. Pronto, agora vamos para casa... concentre-se... O quê? Você não quer ir para casa agora? Você quer terminar a iniciação? Mas, meu jovem aprendiz, você está ferido. Como assim, não está ferido? Oh, a escama que Bravura entregou a você estava sob a sua camisa durante todo esse tempo e funcionou de escudo, protegendo-lhe o coração. Quanta sorte! Deixe-me ajudá-lo a levantar... Essa luz? É o Pirata Fantasma, ele esteve nos observando durante todo esse tempo! Ele perdeu um dos olhos numa batalha e por isso usa um tapa-olho. Noutra batalha ele também perdeu a perna direita, por isso a perna de pau. Ele está apontando para um buraco aberto no navio. Vamos, vou ajudá-lo a nadar por ali. Oh, é o bau com o tesouro dele! Encontramos o tesouro! Veja como as moedas de ouro e as jóias brilham. Não tomemos nada que nos pertence. A missão está quase cumprida. Vamos retornar à superfície. O fantasma parece querer dizer alguma coisa...
Você provou ser um marinheiro de valor ao proteger a vida do seu capitão. Quem dera nos meus tempos de pilhagem a minha tripulação tivesse sido formada de homens com valores com os seus. Leve cinco moedas de ouro do meu tesouro em sinal da minha admiração.
Obrigado, Pirata Fantasma! Meu amigo, cinco moedas! Elas não têm valor na sua terra, mas são o resultado do seu valor. Agora vamos voltar à superfície. Está na hora de terminar essa missão. Nademos para cima! Até logo, Pirata! Muito obrigado!
Vê a superficie tremeluzente da água? Vamos, estamos nos aproximando do nosso mundo. Aqui, segure as cordas do balão e vamos subir de volta a ele. Já podemos tirar os nossos capacetes. Como você está se sentindo, meu amigo? Parabéns, você cumpriu a iniciação. Primeiro atravessou a Floresta do Mago Cristalino e salvou-me a vida quando atravessavamos a ponte. Depois cruzou os ares e demonstrou valorosa coragem ao lutar pelos unicórnios. E agora salvou-me a vida outra vez quando fomos atacados pelos homens-tubarão, mostrando que não deixa nenhum amigo para trás mesmo que a sua própria vida esteja em risco. Você é o melhor amigo que já fiz e, além do orgulho de professor, tenho a honra pessoal de entregá-lo a insígnia de iniciado nas artes do sonho arcodado e mistérios dos devaneios. Essa pequena estrelinha azul é a prova de todas as aventuras pelas quais passamos, por todos os perigos e alegrias, todos os seres que conhecemos e os amigos que fizemos.
Você agora é, meu amigo humano, um explorador como eu. Não tenha medo de seguir em novas jornadas. Basta apenas concentrar-se no destino e nos indivíduos que busca encontrar por esse mundo da imaginação. Continue viajando mentalmente, lute por novas causas, ajude quem precisar de ajuda e não esqueça de, quando voltar ao mundo real, espalhar os ensinamentos que tiver aprendido. Nós contamos com você para dizer aos outros humanos, as outras criancas e aos adultos, que sonhar faz bem e ter uma mente imaginativa pode levá-los aos locais que gostariam de visitar e trazer amigos leais aos dias em que se sentem tão solitários.
Foi um prazer estar nessa jornada com você, meu amigo. Espero vê-lo outro dia, topar com você numa aventura ou outra pelos vales, cachoeiras e florestas élficas dessas terras encantadas. Lembre-se sempre da respiração. É a chave para concentrar-se. E nos momentos difíceis por aqui ou por aí... confie em si mesmo. Você é mais forte do que imagina! Caso precise de mim, você sabe como eu me chamo e com o que pareço... apenas chame o meu nome e olhe para o céu, onde encontrará o meu balão vermelho surgindo no horizonte.  

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